Quando tive a idéia de montar este blog aqui Na Lata do Poeta, entrei em contato com Suzane Jardim, editora do jonal PNOB (Preto no Branco) e pedi que me indicasse alguns poetas pra escrever no blog. Ela disse: "Entra no meu orkut que tem vários". Eu pedi que me indicasse os que ela mais gostava e foi então que ela listou "Tavinho Paes, Ulisses Tavares, Monica Montone e o Zé (Rodrix). Tenho que admitir, só conhecia o nome do Zé, por causa da sua famosa música com a Elis Regina, e de uma musica dele que sou fã de carteirinha "Jesus Numa Moto". Então, foi assim, ingenuamente, que enviei um email coletivo convidando este pessoal pra participar deste blog aqui: Na Lata do Poeta. Não sei bem o que aconteceu. Creio que lendo a proposta do blog e a lista dos convidados, cada um dos poetas na lista decidiu participar, e prontamente, Zé (Rodrix) inclusive. E foi assim que eu e todos os Lateiros desta época, tivemos a oportunidade de bater vários papos na lata com o lateiro Zé (Rodrix).
(meio da viagem)
A banda Marhilia de Dirceu, da qual participo, ia tocar em um bar da Vila Madalena. Já fazia algum tempo que tínhamos incluido a música Jesus Numa Moto no nosso repertório. Adorávamos toca-la e eu sempre comentava com o Zé (Rodrix) como tinha ficado nossa versão da música e como tinha sido a execução nos shows. O show na Vila Madalena se chamaria "Última Parcela", e tinha este nome porque o dinheiro arrecadado era pra pagar a ultima parcela do CDemo que haviamos gravado recentemente. Convidei o amigo lateiro pra cantar a música dele no show... e não é que ele aceitou.
Eu tinha que preparar alguma surpresa pra ele, não porque o Zé era o Rodrix, mas porque ele era o compositor de Jesus Numa Moto. Sabe aquelas músicas que alguém faz antes de você, tirando todas as palavras da sua boca, e dai só lhe sobra duas opções, ou odiar a pessoa por ter fotografado sua alma, ou ama-la. Pois é, Jesus Numa Moto faz isto comigo. Então, me lembrei de um poema que o Zé (Rodrix) tinha escrito aqui Na Lata, e que eu também havia adorado (o poema está publicado abaixo). Era um poema longo. Supus que seria meio tedioso pra um publico de rock ouvir poesia falada, reflexiva e longa daquele jeito, mas... foda-se! rsrsrs... Era minha chance de homenagear o compositor de Jesus Numa Moto. Imprimi a letra e levei pro show.
Quando cheguei no bar o Zé (Rodrix) já havia chegado. Estava junto com seu filho. Foi a primeira e única vez que nós encontramos fisicamente. Conversamos sobre o blog, sobre literatura, sobre musica, e outras coisas. No meio do show, como havia combinado com a banda, tirei o poema do bolso e comecei a ler. Me lembro bem da surpresa dele. Eu e o Zé (Rodrix) tínhamos uma admiração em comum: Fernando Pessoa. Por isto o poema escolhido se chama "Pessoana". Sabe, no dia do show, ao ler o poema, sentia que o bilheteiro personagem do poema, estava querendo me dizer alguma coisa. Agora, percebo que aquela homenagem tinha a ver com esta aqui. Pra mim foi um momento inesquecível. Creio que ninguém no show entendeu o poema. Mas eu estava entendendo e o Zé (Rodrix) também. Estávamos nós dois viajando naquele trem.
(fim da viagem)
Acordo e vou chegar a caixa de email. Tem uma mensagem do Ulisses Tavares falando do falecimento do Zé (Rodrix).
Zé (Rodrix), seja lá pra onde sua viagem continua, creio que finalmente chegou a hora de "aproveitar do conforto de não ser mais ninguém". Foi um prazer poder sentar ao seu lado neste trem de lata. Se acontecer de sentarmos juntos novamente, em outros trens, outras viagens, será um prazer novamente. Segue abaixo, em homenagem a sua participação aqui Na Lata do Poeta, o poema que li de surpresa aquele dia no show da Vila Madalena. Vou relê-lo em voz alta. Faz de conta que é surpresa de novo.
Pessoana - Zé Rodrix(para Angela Dutra)
Nao abro portas.
Nem portas nem janelas.
Fora isto, levo uma vida real,
como toda gente.
Real, usual, normal, como queiram,
em que os dias vem um trás o outro
como vagões de um comboio desgovernado
cujo destino nem mesmo o maquinista conhece.
No vagão de hoje, neste vagão que é o dia de hoje,
faço o mesmo que fiz no vagão de ontem
e que farei no de amanhã,
em repetição constante e nem um pouco misteriosa
de atos caóticamente identicos,
porque, mesmo que eu quisesse romper com essa platitude infinita,
mesmo que eu pudesse por minha vontade trocar de vagão,
com quem trocaria, se estou irremediavelmente só
em todo e cada vagão sucessivo de meus dias?
Sei que sou, por que cá estou.
Sei que estou, porque cá me percebo.
E mesmo se não me percebesse
(alucinado por um ópio qualquer)
ainda assim cá estaria
e seria eu-mesmo,
porque a realidade das coisas
ultrapassa em muito os desejos de ser-se isto ou aquilo,
porque tanto isto quanto aquilo
acabam por revelar-se
exatamente o mesmo que tenho sido e ainda serei.
Olhar para tras ou para frente nada muda:
os vagões deste comboio são idênticos,
e mesmo nas ocasiões em que minha propria alma,
vestida com o fato azul-marinho de condutor,
vem pedir-me o bilhete, para picotar,
não me encontra,
pois me escondi no lavatório,
já que o bilhete nunca sei onde o pus,
e nao quero ser expulso por nao poder exibi-lo.
Tenho medo de ser expulso de minha propria vida,
porque minh’alma, quando veste o tal fato azul-marinho
e põe à cabeça o quepe galardoado,
se torna poderosa e autoritaria,
e se nao lhe mostro o bilhete
(que na verdade nao me recordo se algum dia tive)
é bem capaz de atirar-me para fora de mim mesmo,
deixando-me sem corpo, nem chapéu,
abandonado a meio-caminho
entre o Nada e o Coisa-Alguma.
Nao quero pensar em mim,
que já nao me suporto!
Eu, que tantas vezes na vida
nao fui capaz de dizer ao acensorista o andar que queria,
simplesmente porque já me enganara de prédio,
que farei eu desse eu-mesmo
que já nao reconheço por não haver espelho para o inexistente?
E, se ao expulsar-me do trem,
minh’alma de quepe e farda
ainda houver por bem atirar-me a bagagem por cima
abandonando-me com este peso inerte?
Ou então (pior!) se decidir a levar-me a mala consigo,
como ressarcimento pelo bilhete inexistente,
e a mim só me restar este costume rasgado pela queda,
sujo de terra e grama, e cada vez mais enrugado?
O apito toca, de subito:
e eu, como quem acorda de um sonho, percebo que paramos.
Minha vida estaciona lentamente em uma estação qualquer,
para tomar água, comprar os periodicos e os refrescos,
esticar as pernas.
Tambem desço.
Mas logo, logo, retorno a meu lugar,
de puro mêdo que minha vida parta sem mim.
E, enquanto me sento onde já estava,
tentando inutilmente ser o mais invisivel que possa,
minh’alma fardada atravessa o vagão,
olha em minha direção, sorri como se fôssemos velhos conhecidos,
dá-me dois tapinhas ao ombro
(com uma familiaridade desconcertante)
e me deixa só, mais uma vez irremediavelmente só,
enquanto uma réstia de sol rompe a barreira das nuvens
e me faz fechar os olhos
desde sempre enevoados.

